NGA MUTÚRI

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Descrição

Da autoria de Alfredo Troni, jornalista e escritor angolano do século XIX, Nga Mutúri foi publicada em 1882. Pequena novela de cerca de trinta páginas, esta obra, indo ao encontro de um certo gosto da época. Com o título temático de Nga Mutúri (mulher viúva) e tendo como personagem principal uma mulher (Sra. Andreza) que só após a viuvez assume o nome de Nga Mutúri e à volta da qual, minuciosa e pormenorizadamente, se vai enformar toda a narrativa, esta obra constituiu-se como um importante apontamento da sociedade angolana do século XIX, dos seus costumes e tradições. Para tal, ao lado da protagonista, surgem personagens secundárias e dezenas de figurantes, às vezes, apenas referenciados com um nome ou uma profissão, cuja função é a de ajudar à contextualização espácio-temporal e social.


Na verdade, Nga Ndreza, forma crioulizada de Senhora Andreza, foi entregue, de acordo com a "lei do quitúxi", como indemnização, na sequência de prejuízos causados por um familiar, a um comerciante do mato de quem se tornou a amante principal e com o qual foi viver para Luanda. Esta relação vai permitir a ascensão social da personagem que vai sofrer um processo de aculturação com a deslocação do espaço do mato para o espaço da cidade. Negra de cor clara, Nga Mutúri encontra neste tom da pele legitimidade para reivindicar a sua ascendência branca, hipocritamente consentida pelas suas hipócritas amigas brancas que a bajulam e a quem emprestava dinheiro, dada a desafogada situação financeira em que ficara com a morte do amante. Contudo, esta assimilação económica não correspondia a uma verdadeira aculturação. Incapaz de romper com as origens, com os costumes que acompanharam o seu crescimento, esta personagem configura uma vivência "dupla" assente, por um lado, em atitudes (emprestar dinheiro aos brancos, por exemplo) que lhe franqueiam os espaços socio-culturais do branco e, por outro, numa simbiose entre os cultos, rituais e código linguístico nativos e os ritos católicos e a língua portuguesa. De facto, se por vezes participava em ritos católicos, como por exemplo a missa, Nga Mutúri não conseguia libertar-se da prática fetichista. A descrição da sua relação afetiva, por exemplo, remete-nos sempre para a sua anterior condição de escrava e demonstra um conhecimento profundo dos costumes supersticiosos que assolavam a população feminina nativa: " (...) ora é um bocadinho de cola e gengibre dentro de um lenço dobrado em coração, ora umas laranjas muito boas do arimo do Dande, cana doce, ovos, enfim coisas que ela oferece com muita gravidade, tirando-as da quinda em que a Bebeca as trouxe (...)".


Embora mantendo este comportamento híbrido, a personagem, profundamente marcada por contrariedades afetivas, constrói à sua volta uma muralha que a isola do mundo que tão empenhadamente reivindicou como seu, assumindo um comportamento de dignidade e de independência.


Obra composta por sete capítulos, onde se notam algumas influências do realismo queirosiano, fundamentalmente no recurso à ironia, Nga Mutúri dá forma a um verdadeiro retrato da sociedade luandense, nomeadamente no que concerne ao seu modo de estruturação interna.


Ficha Técnica:

Autor: ALFREDO TRONI

Título: NGA MUTÚRI

FORMATO: 16x23

N.º PÁGINAS: 42

Editor: União dos escritores Angolanos

Luanda 2013